Carrefour compra rede BIG Brasil por R$ 7,5 bi, de olho em expansão no Sul e Nordeste

Carrefour compra rede BIG Brasil por R$ 7,5 bi, de olho em expansão no Sul e Nordeste

De olho em regiões do país em que ainda tem penetração limitada, o grupo Carrefour Brasil, maior rede varejista do país, decidiu comprar todas as ações do grupo BIG Brasil para ampliar sua presença no Nordeste e no Sul. A operação, que ainda precisa ser aprovada pelos órgãos de defesa da concorrência, foi fechada por R$ 7,5 bilhões.

— O negócio vai acelerar nosso crescimento no próximo ano. As lojas do grupo BIG apresentam muita complementaridade, especialmente no Nordeste e Sul do país. Vamos poder oferecer maior quantidade de produtos e serviços com preços ainda mais competitivos — disse o presidente do Carrefour Brasil, Noël Prioux, em teleconferência para apresentação do negócio.

Prioux afirmou que o grupo faz um grande investimento num momento muito desafiador, mostrando o compromisso com o futuro do país.

A rede BIG, terceira maior varejista do país, pertence a uma sociedade entre o fundo de investimento de private equity Advent International, que detinha 81% das ações do BIG, e o Walmart, sediado nos Estados Unidos, com 19% das ações.

Com a notícia da aquisição, os papéis do Carrefour saltaram mais de 10% na Bolsa brasileira, a B3. Na França, chegaram a subir 2,8% no pregão desta quarta-feira, melhor desempenho do principal índice da Bolsa de Paris, o CAC-40, em uma sessão de recuo do mercado acionário francês.

 

Ações e dinheiro

A compra será realizada 70% em dinheiro (R$ 5,25 bilhões) e 30% por meio de ações recém-emitidas do Carrefour Brasil. A empresa já adiantou um pagamento de R$ 900 milhões. Dos R$ 5,25 bilhões, uma parte virá do caixa da companhia e outra será financiada.

Após a conclusão da transação, o grupo Carrefour terá cerca de 67,7% do Carrefour Brasil, frente aos 71,6% atuais. A Península Participações, do empresário Abilio Diniz, terá 7,2% e Advent International e Walmart, por meio de afiliadas, ficarão com 5,6%.

Em 2018, o Advent comprou 80% do Walmart no Brasil. No ano seguinte, a rede anunciou o fim da marca no país e passou a se chamar grupo BIG, agora adquirido pelo rival francês Carrefour.

 

Juntas, empresas têm 876 lojas

Juntos, os dois grupos têm potencial de vendas de cerca de R$ 100 bilhões, considerando o desempenho do ano passado. Vão operar 876 lojas e terão cerca de 137 mil empregados.

Presente no Brasil desde 1995, o grupo BIG opera uma rede multiformato de 387 lojas e movimentou R$ 24,9 bilhões em vendas em 2020. Segundo Prioux, metade das lojas do BIG é própria, e elas valem R$ 7 bilhões. Ele afirmou que já há 38 terrenos disponíveis para expansão da rede.

O Carrefour Brasil, que está no país desde 1975, opera 489 lojas e teve R$ 74,7 bilhões em vendas no ano passado. Em 2020, teve lucro líquido de R$ 2,7 bilhões, crescimento de 43% em relação a 2019.

O negócio também prevê que o Carrefour passará a administrar a bandeira Sam's Club, através de um contrato de licenciamento com o Walmart.

— O Sam's Club é um formato que não operamos. São 35 lojas no país, que atendem público A e B, com muito potencial de expansão — disse Prioux.

Ana Paula Tozzi, presidente da AGR Consultores, acredita que os ganhos para o Carrefour com a operação são imensos. Além do negócio em si, a empresa passará a ter uma forte presença em clubes de compras, no caso do Sam’s, com dois milhões de associados. Ao contrário do simples cadastro dos atacarejos, este modelo permite uma relação muito mais intensa com o consumidor, em um modelo ainda não muito desenvolvido no Brasil, mas com potencial de crescimento.

Segundo Ana Paula, além da complementaridade regional, o Carrefour pode levar para o BIG seus padrões internos de operação e desempenho, o que pode gerar um salto nos resultados da empresa. Atualmente, o Carrefour tem quase o dobro de vendas, por metro quadrado, do BIG.

— Por si só ele consegue dobrar o ebitda (sigla em inglês para Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) do BIG e quase dobrar o ebitda do Maxxi Atacado (do mesmo grupo), com rapta captura de sinergia — avalia Ana Paula.

 

Poucos entraves concorrenciais

A aprovação da transação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), responsável pela questão concorrencial, não tende a ser complexa. Para este tipo de operação, o órgão concorrencial promete avaliação em 240 dias, prorrogáveis por mais 90 dias, segundo João Pedro Nascimento, professor na FGV Direito Rio e sócio da JPN Advogados.

— Esta é uma operação clássica em um setor que tem uma gestão financeira desafiadora, porém em um segmento muito pulverizado, sem grandes concentrações — disse.

Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, acredita que o negócio não deve gerar preocupações em termos de concentração de mercado. Ele lembra que o setor de supermercados é muito pulverizado no Brasil, na comparação com países como Estados Unidos, México, Reino Unido ou outros países europeus, e que o grupo formado por Carrefour e BIG não terá nem 10% do mercado brasileiro.

— Talvez tenha algum problema de concentração em uma cidade ou outra, mas isso não se repete em nível regional ou estadual. Porém, os grupos do Sul do país, como Zaffari, Angeloni e Comper, terá um novo concorrente de peso e terão que se mexer — afirmou.

Terra lembra ainda que além do ganho de escala, o negócio dá ao Carrefour vantagens em seu braço financeiro, o Banco Carrefour, que terá a base de clientes do BIG, rede que está em melhor condições do que quando era do Walmart. Outro ganho será no mercado imobiliário, abrindo uma avenida de oportunidades" para o Carrefour  explorar novos formatos.

— A primeira unidade do Walmart no Brasil, hoje Big, fica em Osasco e é vizinho de parede com uma grande loja do Carrefour, por exemplo. Ali é o exemplo de como o Carrefour pode usar esta estrutura para abrir uma loja do Atacadão, por exemplo — disse.

 

Sinergia de R$ 1,7 bilhão anuais

Os ganhos de sinergias estimados pelo Carrefour são de R$ 1,7 bilhão por ano, a partir do terceiro ano após a conclusão do negócio.

— Vejo muito mais potencial de sinergias do que mostram os números — avaliou Prioux.

As sinergias serão obtidas com aumento das vendas, oferta de serviços financeiros do Banco Carrefour nas novas lojas e à uma base de clientes ampliada, aceleração do e-commerce, marketplace e redução de custos com maior eficiência na cadeia de suprimentos.

Alexandre Bompard, presidente do Grupo Carrefour declarou e

m nota que a aquisição do BIG irá fortalecer o Carrefour Brasil com formatos de vendas e localizações complementares no país.

"Nosso Grupo está na ofensiva. A aquisição do BIG é um grande movimento de transformação para o Carrefour Brasil e o BIG irá fortalecê-lo ainda mais com muito formatos e localizações complementares. A transação se encaixa perfeitamente no ecossistema do Carrefour Brasil e na estratégia de aquisições centrada na consolidação dos nossos mercados-chave", declarou Bompard.

A aquisição permite que o Carrefour se expanda em seus formatos tradicionais, notadamente Cash & Carry (o atacarejo de bandeira Maxxi, marca do BIG) e hipermercados (bandeiras BIG e BIG Bompreço), ao mesmo tempo em que amplia sua presença em formatos onde tem uma presença mais limitada, como supermercados (bandeiras Bompreço e Nacional) e lojas de proximidade (bandeira Todo Dia).

De acordo com o fato relevante divulgado pelo Carrefour Brasil, a ideia é converter unidades Maxxi para a bandeira Atacadão e parte das lojas BIG e BIG Bompreço para as bandeiras Atacadão ou Sam’s Club. As demais lojas serão convertidas para a bandeira de hipermercado Carrefour.

A compra do BIG vai adicionar 15 milhões de pessoas à base de clientes do grupo Carrefour no país, que hoje atende a cerca de 45 milhões de brasileiros.

A expectativa do Carrefour é que a operação seja concluída até 2022.

 

Consolidação do setor

Henrique Florentino, analista da Empiricus Research, acredita que o setor pode passar por uma nova consolidação. Ele afirma que o mercado tem olhado muito para o Grupo Pão de Açúcar (GPA), das marcas Pão de Açúcar e Extra, por conta do valor de mercado do grupo: R$ 8 bilhões tendo faturado R$ 31 bilhões em 2020. Para efeito de comparação, o BIG foi vendido por R$ 7,5 bilhões, tendo registrado vendas de R$ 25 bilhões no ano passado.

— Eu acredito que há muita possibilidade disso [consolidação] acontecer, a gente já viu algumas especulações, como a Magazine Luíza dizendo que quer crescer em alimentos, a Via Varejo também. O GPA é um alvo claro de qualquer um que queria entrar neste setor, bem espalhado pelo país e já com operações na América do Sul. Já tivemos outras operações interessantes no ano passado, como o IPO (lançamento de ações) do Grupo Mateus (focado em estados do Norte e do Nordeste). A gente deve ver movimentação no setor — disse o analista.

Florentino afirma que, além disso, grupos regionais deverão tentar reforçar suas operações e "defender territórios", com a nova força do Carrefour. Florentino lembra ainda que as ações do setor de supermercados, se não geram muitos ganhos para os investidores, são papéis muito estáveis e resilientes e que servem como uma espécie de "seguro"  em momentos de turbulência.

 

Crédito: O Globo Economia

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